Quarta-feira, 19 de Novembro de 2008

A Velha Casa

Bebemos duas sangrias cada uma no Largo do Chafariz de Dentro e subimos a Rua dos Remédios. De uma janela do edifício da Junta de Freguesia acreditámos ouvir gritos dolorosos de uma mulher a parir um filho.

À porta, um homem convidou-nos a assistir a uma encenação de um texto de Luiz Pacheco, a Velha Casa. Explicou que a cada meia hora, iniciavam uma nova sessão, em que a acção decorria ao mesmo tempo em cada uma das divisões da casa: a sala dos reposteiros verdes, a cozinha, o quarto da mãe, o quarto da criança e a casa-de-banho.

Já passava um minuto das 9h30 quando entrámos, e por isso não tivemos escolha, fomos conduzidas rapidamente para a última divisão. A porta fechou-se e vimo-nos num cubículo de quatro metros quadrados de tecto baixo, sem janela, húmido e quase sem luz. Um casal estava já sentado, num banco corrido que ia do bidé à sanita.
Em frente ao lavatório estava um rapaz moreno de belo porte, de toalha enrolada à cintura.

Olhava-se fixamente ao espelho, besuntado de aftershave, deixando no ar um cheiro abafado e doce, que chegava a enjoar. Falava alto e a sua voz ressoava nas estreitas paredes fazendo estremecer os nossos corpos. Tão perto que estávamos, conseguíamos ouvir a respiração de cada um, provocando-me aquela exiguidade um incontrolável acesso de riso. Tentei domá-lo, mas sentia demasiadas cócegas por dentro. Calou-me o riso o momento de maior exaltação do texto, em que o esbelto rapaz trepou num ápice para o rebordo da banheira, caindo-lhe a toalha no chão. E não foi a infirmação da teoria da proporção divina que me deixou atónita, mas antes a imposição da nudez tão próxima entre desconhecidos, de forma totalmente inesperada. Também me tocou o monólogo interior sofrido, de alguém mais velho que regressa à casa onde cresceu, e depara-se com o vazio de gente, ausência dos cheiros, dos objectos, dos sons, das conversas. O confronto doloroso com a degradação física da casa, hoje abandonada.

Quisemos ver a peça sob outra perspectiva, deixando-nos ficar para a sessão seguinte: na cozinha. Aí estavam mais pessoas a assistir. O mesmo texto, outra personagem, a cozinheira. Na fila de trás, os risinhos incontrolados denunciavam o nervosismo da proximidade, quase interactividade, entre público e “palco”. Temi pelos seus corações, caso fossem à casa-de-banho...
publicado por Branca às 18:24
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1 comentário:
De leo a 21 de Novembro de 2008 às 16:07
Dona Branca,
essa encenacao soa bem, se estivesse em Lisboa gostava de la ir.
Post excelente!!
Beijinhos e bom fim-de-semana, madame couscous

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