Sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2008

Campo de papoilas

Ele dominava a arte do galanteio. A pose, o andar, mas sobretudo o olhar: matador. Cinquenta anos sempre ajudam a saber conversar, a saber dizer o que uma mulher gosta de ouvir, e de qualquer idade. Além do mais era pintor. Transbordava sensibilidade e outras mais coisas. Conheci-o durante a sua exposição em Portugal. Um dia, convidou-me a sentar consigo e mostrou-me a sua obra. Por entre retratos de reis e rainhas, alguns rostos singulares pintados em primeiro plano, cenas de caça, haviam mulheres nuas deitadas em campos de flores, recordo-me dos de tulipas e de narcisos. Disse-me de forma inesperada que gostaria que pousasse para si, por altura das papoilas. Sempre achei que eram flores bonitas mas demasiado efémeras, ou o fazia por aqueles dias ou então só um ano depois. E aí já seria demasiado tarde, não havia tempo para racionalizar a questão, seria pegar ou largar. Ao conhecer a minha mãe, como que a pedir permissão, disse em tom de desafio: gostaria de pintar a sua filha, fitando-me olhos nos olhos. Ela, que nada sabia deste convite indecoroso, balbuciou-me entre dentes para que aproveitasse, seria uma oportunidade única, ter um retrato feito por um pintor tão bem conceituado em Espanha. Na altura, lembro-me do forte rubor que me tingiu a cara por não poder explicar à frente dos dois que o retrato seria completo, ou seja, de corpo e alma. Como disfarçar que por detrás daquele convite aparentemente inócuo, da arte pela arte, se escondiam pensamentos proibidos? Na altura em que uma brisa agradavelmente amena viesse confundir os contornos, cores e sombras pintados na tela com os contornos corpóreos daquele não-lugar, que muito provavelmente só existia na minha cabeça...
Hoje, poderia estar a pendurar na parede mais nobre da nossa casa um quadro de uma mulher estirada algures num campo de papoilas. Mas não. Tenho antes um poster de uma mulher pintada por Matisse a pregar numa ponta do corredor, de maneira a que não se vejam os reflexos do seu papel medíocre e brilhante.
publicado por Branca às 11:30
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5 comentários:
De lira a 8 de Fevereiro de 2008 às 17:40
Há devaneios, perdão, papoilas cuja cor delicia.
De nesca a 9 de Fevereiro de 2008 às 21:28
A papoila é a minha flor preferida... selvagem, frágil...frágil...mas perfeita! A 2a opção são as tulipas
De Anónimo a 12 de Fevereiro de 2008 às 14:56
Um privilégio viajar por estes devaneios no tempo e no espaco e pensar no que poderia ter sido...
leo
De Branca a 12 de Fevereiro de 2008 às 18:07
..."no que poderia ter sido", é realmente o melhor ponto de partida, Leo. A partir daí cada uma constrói o seu filme.

Saludos de Doña Branca
De panamá a 13 de Fevereiro de 2008 às 14:04
Lembro-me do entusiasmo, que se tornou ainda mais intenso, precisamente pelos tais devaneios proibidos no não-lugar só teu...a graça da vida está precisamente aí, nã lhe parece D. Branca? beijinhos de saudade, minha querida:)

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