Sábado, 28 de Fevereiro de 2009

III. Para lá do Marão...

Depois de muitas horas de viagem, parámos na aldeia de Coropos, onde pensámos comer só uma sopita quente antes de ir dormir. Mas a Dona Rosa, para além da sopa, "botou" na mesa pão maciço, e presunto, e queijo, e azeitonas, e vinho a transbordar do jarro enquanto preparava a comida do "pote". De estômago já reconfortado, vieram as perguntas. Mas afinal que estais aqui a fazer em Coropos? Sois professores, que fazeis? Os cinco homens que jogavam uma cartada ao canto da sala à lareira, juntaram-se à conversa. Daí a pouco já os "nossos homens"  tragavam um "chopito" oferecido pelo pastor, que não fossem as suas noventa ovelhas terem de ir pastar no dia seguinte, de resto como todos os dias,  tinha muito gosto em ir mostrar-nos a sua terra. Falou-se de política, do desemprego, da crise, do custo de vida. Às vezes ponho-me a pensar, dizia um, como será que os gajos lá em baixo (Lisboa) viverão? Podem ganhar mais, mas as casas são mais caras,  e ainda têm de pagar transportes, combustível, creches, alimentação fora de casa... aqui um gajo sempre tem mais qualidade de vida, um pedacito de terra e a arca cheia de carne para o que der e vier...

 

Já era tarde, quando chegámos ao Parque Biológico de Vinhais. Onde nos preparávamos para passar um sereno fim de-semana em perfeita simbiose com a natureza e os animais... e uma festa de adolescentes num dos quatro bungalows do parque, para a qual fomos convidados com toda a simpatia pelo aniversariante. Agradecemos o convite, mas preferimos curtir a música electrónica na cama, na esperança de pegar no sono!

 

No dia seguinte fomos visitar os animais protegidos do parque. Apresento-vos a Rosita. Uma linda burra mirandesa de pêlo comprido e macio, que não se importava de ser fotografada  com os urbanitos (uns mais que outros) em troca de uma boa dose de festinhas nas orelhas e no focinho.

 

 

 

Chegámos a Bragança mesmo a tempo do Corso.  Começámos a avistar os caretos, misteriosas criaturas vestidas de fatos de lã grossa e colorida, com faixas de pesados guisos às costas. Que curiosa  é a tradição popular, pensava. Enquanto me questionava sobre as suas representações culturais, puxei da máquina, pronta a disparar. E foi então que começaram os sustos! Depois de uma breve pesquisa percebo agora o porquê daquelas "chocalhadas" frenéticas nas minhas costas: "Mergulhando na raiz profana do carnaval, o verdadeiro motivo que move o careto é apanhar raparigas para as poder chocalhar. Sempre que se vislumbra um rabo de saia, o careto é impelido pelo seu vigor. Ao Careto tudo se permite nestes dias, pois ele assume uma dupla personalidade. O indivíduo ao vestir o fato torna-se misterioso e o seu comportamento muda completamente, ficando possuído de uma energia transcendental."

 

E que energia têm estes transmontanos!!

 

 

 

Gaiteiro de foles galego

publicado por Branca às 23:28
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Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

II. Para lá do Marão, mandam os que lá estão!

 

Para abrir o apetite: 
 
 
"Vou falar-lhes dum Reino Maravilhoso. Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade, e o coração, depois, não hesite. Ora, o que pretendo mostrar, meu e de todos os que queiram merecê-lo, não só existe, como é dos mais belos que se possam imaginar. Começa logo porque fica no cimo de Portugal, como os ninhos ficam no cimo das árvores para que a distância os torne mais impossíveis e apetecidos. E quem namora ninhos cá de baixo, se realmente é rapaz e não tem medo das alturas, depois de trepar e atingir a crista do sonho, contempla a própria bem-aventurança.
Vê-se primeiro um mar de pedras. Vagas e vagas sideradas, hirtas e hostis, contidas na sua força desmedida pela mão inexorável dum Deus criador e dominador. Tudo parado e mudo. Apenas se move e se faz ouvir o coração no peito, inquieto, a anunciar o começo duma grande hora. De repente, rasga a crosta do silêncio uma voz de franqueza desembainhada:
 - Para cá do Marão, mandam os que cá estão!...
Sente-se um calafrio. A vista alarga-se de ânsia e de assombro. Que penedo falou? Que terror respeitoso se apodera de nós?
Mas de nada vale interrogar o grande oceano megalítico, porque o nume invisível ordena: 
- Entre! 
A gente entra, e já está no Reino Maravilhoso.
 A autoridade emana da força interior que cada qual traz do berço. Dum berço que oficialmente vai de Vila Real a Chaves, de Chaves a Bragança, de Bragança a Miranda, de Miranda a Régua. 
Um mundo! Um nunca acabar de terra grossa, fragosa, bravia, que tanto se levanta a pino num ímpeto de subir ao céu, como se afunda nuns abismos de angústia, não se sabe por que telúrica contrição.
Terra-Quente e Terra-Fria. Léguas e léguas de chão raivoso, contorcido, queimado por um sol de fogo ou por um frio de neve. Serras sobrepostas a serras. Montanhas paralelas a montanhas. Nos intervalos, apertados entre os rios de água cristalina, cantantes, a matar a sede de tanta angústia. E de quando em quando, oásis da inquietação que fez tais rugas geológicas, um vale imenso, dum húmus puro, onde a vista descansa da agressão das penedias. Mas novamente o granito protesta. Novamente nos acorda para a força medular de tudo. E são outra vez serras, até perder de vista.
Não se vê por que maneira este solo é capaz de dar pão e vinho. Mas dá. Nas margens de um rio de oiro, crucificado entre o calor do céu que de cima o bebe e a sede do leito que de baixo o seca, erguem-se os muros do milagre. Em íngremes socalcos, varandins que nenhum palácio aveza, crescem as cepas como os manjericos às janelas. No Setembro, os homens deixam as eiras da Terra-Fria e descem, em rogas, a escadaria do lagar de xisto. Cantam, dançam e trabalham. Depois sobem. E daí a pouco há sol engarrafado a embebedar os quatro cantos do mundo.
A terra é a própria generosidade ao natural. Como num paraíso, basta estender a mão.
Bata-se a uma porta, rica ou pobre, e sempre a mesma voz confiada nos responde:
- Entre quem é! Sem ninguém perguntar mais nada, sem ninguém vir à janela espreitar, escancara-se a intimidade duma família inteira. O que é preciso agora é merecer a magnificência da dádiva. 
Nos códigos e no catecismo o pecado de orgulho é dos piores. Talvez que os códigos e o catecismo tenham razão. Resta saber se haverá coisa mais bela nesta vida do que o puro dom de se olhar um estranho como se ele fosse um irmão bem-vindo, embora o preço da desilusão seja às vezes uma facada. 
Dentro ou fora do seu dólmen (maneira que eu tenho de chamar aos buracos onde vive a maioria) estes homens não têm medo senão da pequenez. Medo de ficarem aquém do estalão por onde, desde que o mundo é mundo, se mede à hora da morte o tamanho de uma criatura.
Acossados pela necessidade e pelo amor da aventura emigram. Metem toda a quimera numa saca de retalhos, e lá vão eles. Os que ficam, cavam a vida inteira. E, quando se cansam, deitam-se no caixão com a serenidade de quem chega honradamente ao fim dum longo e trabalhoso dia.
O nome de Trasmontano, que quer dizer filho de Trás-os-Montes, pois assim se chama o Reino Maravilhoso de que vos falei."
 
Miguel Torga, Um Reino Maravilhoso (Trás-os-Montes)  
publicado por Branca às 12:51
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I. Para lá do Marão, mandam os que lá estão!

Combinámos que às quatro da tarde estou à porta para arrancarmos directamente para Vinhais, situado no "limite" Nordeste de Portugal. Expressões populares como "as voltinhas do Marão"  e "para lá do Marão mandam os que lá estão" , não me deixam nada segura em relação à minha continência digestiva em contexto sinusoidal (em curvas e contracurvas).

 

Apesar disso, estou bastante animada com a escapadinha de 3 dias. Vamos pernoitar num bungalow, situado numa reserva natural. Espero poder encher a vista de grandiosas paisagens em estado (semi) selvagem, de raposas, perdizes, lebres, cervídeos (bambis)...  A reportagem fotográfica está garantida!

 

 

publicado por Branca às 10:38
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Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009

Jantar dos Desconhecidos

  

À medida que iam chegando apresentavam-se com o primeiro nome e local de pertença. Silves, Amadora, Tomar, Évora, Moçambique... E essa mania de se dizer que se é (da metrópole) de Lisboa, de forma arrastada e acompanhada de um balançar de cabeça e de mão, não foi deixada passar em branco. Porque viver em Rio de Mouro ou em Marvila corresponde a histórias de vida diferentes.  Sobretudo num contexto como este, em que o propósito (ou despropósito) é conhecer pessoas diferentes. Ah, és de Tomar? Por acaso não conheces a Raquel? Raquel quê? Humm, o apelido não sei. Curioso este esforço para estabelecer afinidades e pontos de encontro entre estranhos. E o regojizo que  é encontrá-los!

 

O jantar prossegiu em amena cavaqueira, com direito a discurso e apresentação da ideia. Ficou desde logo assente que aquele seria o primeiro de muitos jantares de desconhecidos, e que no próximo, cada amigo desconhecido levaria um novo desconhecido. O objectivo? Encher um dia o Pavilhão Atlântico, tal como o Tony  Carrreira o conseguiu no Olympia em Paris!

publicado por Branca às 16:16
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Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009

Dia de S. Valentim (ou como acabar com qualquer réstia de romantismo deste dia)

 

Foi de aproveitar a promoção do LIDL, que estava a vender Phalaenopsis de todas as cores só a 9,99 euros.

(Quase gritei de susto quando vi um coração vermelho enorme espetado no vaso.)

publicado por Branca às 12:55
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Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009

Le cool

Ontem recebi um convite fora do comum. Fui convidada para jantar em casa de uma amiga, com a nuance de que não conheço ninguém além dela. Passo a explicar a ideia: serão quatro amigos, em que cada um convida um amigo que não poderá conhecer nenhum dos outros três (e que provavelmente não conhecerá nenhum dos seus amigos). Em suma um bando de desconhecidos a jantar à mesma mesa. Achei a ideia engraçada! Nesta fase da vida, a facilidade em conhecer novas pessoas diminui, nada como nos tempos da escola, ou do bendito Erasmus.  As caras repetem-se diariamente, bem como as conversas e lufadas de ar fresco serão sempre bem-vindas. Aceitei o convite na hora*.  Ao  jantar contei ao meu bonbon a história do convite e as teorias adjacentes. Resposta: - Isso é mesmo programa de engate. Já fui parar a um.

 

Continuo na minha. Nesta vida, ou se é cool ou não se é.

 

 

 

*Podemos adiar o nosso programa para a outra semana?

publicado por Branca às 12:18
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Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

Torre de Babel

Para aqueles persistentes, se é que existem, que acreditaram que este blog um dia iria acordar do sono profundo, ofereço uma recompensa: há um site onde podem fazer cursos de inglês, francês, italiano, espanhol, alemão, islandês, mandarim, japonês, russo e hindi! E é à borliu, free, gratuit, frei! Vale a pena explorar o site, trata-se de uma comunidade livre de pessoas que podem ensinar e aprender ao mesmo tempo várias línguas. A internet pode ser tão bonita!
publicado por Branca às 12:22
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Não me tem apetecido

escrever. Ainda fiz uma tentativa no início do ano, mas sem resultados. Comecei por alterar o aspecto da página, como quem muda os lençóis de uma cama onde é certo dormir-se melhor. Com essa tarefa apenas consegui perder irremediavelmente a lista dos meus links favoritos e quanto ao novo fôlego para escrever, nem rasto. Há dias assim. Meses diria. Com este blog tenho uma relação estritamente hedonista, sem compromissos, e portanto, estamos juntos quando der, quando e enquanto apetecer. E por isso não vejo por que escrever por obrigação, já bem basta tudo o resto...
publicado por Branca às 11:14
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